Resenha sobre o livro "A tanatologia em Epicteto"

  • Davi Fortes Silva Universidade Federal de Sergipe

Resumo

LÓGICA E LINGUAGEM: A QUESTÃO DA IMPLICAÇÃO A PARTIR DA LÓGICA ESTOICA E OUTRAS PERSPECTIVAS

 

Leandro Sousa Costa[1]

 

Vou esboçar, nas seguintes linhas, um breve comentário que se constitui como notas de pesquisa. Tais apontamentos marcam o movimento que tenho feito, nas pesquisas desenvolvidas por mim, nos últimos tempos, e que estão nucleados na lógica e na filosofia da linguagem, especificamente aquelas lógicas desenvolvidas na baixa Idade Média e nos primeiros anos do século XX. A partir disso, proponho um estudo comparativo que aproxima ambas as perspectivas no intuito de perceber pontos de convergência, ruptura e suplementação de teorias. Não quero, aqui, verticalizar nenhuma dessas questões, tampouco vou indicar os autores que elenco para desenvolver a pesquisa que me refiro acima. Não é o propósito dessas notas. Contudo, quero fazer um destaque para o problema da implicação material. Vou apresentar, a partir disso, algumas considerações a respeito dessa questão na lógica estoica.

Antes, porém, e dentro dessa problemática, quero registrar uma hipótese que me parece bastante interessante, qual seja, Frege é, reconhecidamente, no âmbito da lógica, o filósofo que tratou da lógica aristotélica e da lógica estoica, a partir do seu programa logicista, por meio de um simbolismo lógico. Coloco isso de forma bastante genérica. Esse trabalho modifica profundamente o panorama (trabalho) filosófico europeu – no século XIX –, de modo que é possível falar da fundação de nova perspectiva filosófica, a filosofia analítica. Todavia, encontrei, nos caminhos que tenho percorrido, um autor que, na minha leitura, antecipa esse trabalho fregeano de consideração de ambas as lógicas, ele se chama Guilherme de Ockham e faz isso a partir de uma discussão das consequentiae, ou implicação, na sua filosofia.

Dito isso, passo para aquilo que é específico dessas breves notas. A discussão sobre a verdade de uma implicação (ou de um condicional) na lógica é antiga. Desde a Grécia do século III a. C com Diodoro Cronos e Philo de Megara é possível verificar uma preocupação com essa problemática. Destaco que os estoicos, ao colocar a questão da implicação material em pauta – talvez até como o primeiro expediente do programa investigativo – indicam que ela é um fator preponderante para a compreensão do kosmos.

A proposição é um enunciado acerca da realidade. Relacionar proposições nos permite conhecer as relações entre fatos do mundo e, consequentemente, conhece-lo. A questão surge quando observamos a estrutura de um dos casos da implicação e notamos que ela é falsa se, e somente se, o seu antecedente é verdadeiro e o seu consequente é falso. Temos, então, a seguinte disposição dos valores de verdade: Se: P assume o valor de verdade V e Q assume o valor de verdade F, então P => Q assume o valor de verdade F. Isso decorre do entendimento dos lógicos da relação de necessidade e contingência das proposições envolvidas. Temos, pois, a seguinte disposição: o antecedente de uma implicação material é contingente ao passo que o consequente é necessário. Por exemplo, na implicação “Se neva, então faz frio”, de estrutura P => Q, em que P corresponde a “neva” e Q corresponde a “faz frio”, a proposição Q é necessária, enquanto que a proposição P é contingente. Isso quer dizer que “Fazer frio” poderia ser consequência de outro fenômeno que não a neve; poderia ser “Se chove, então faz frio”, ou “Se está nublado, então faz frio”, ou “Se o sol se põe, então faz frio”. Os lógicos estoicos, ao admitirem isso, assumem a postura de que, na ordem natural das coisas, outras causas podem determinar o curso dos acontecimentos, além daqueles que julgamos conhecer. Outrossim, a falsidade do consequente, inviabilizaria a verdade de uma implicação material.

É no contexto da concepção de mundo dos estoicos, isto é, da sua ontologia, que surge essa concepção na lógica proposicional desenvolvida por eles e que vai estabelecer os pressupostos para outras discussões na lógica a partir do século XIX. A meu ver é possível considerar que Ockham e Frege são dois importantes autores, dentro da tradição filosófica europeia, para a lógica e a para filosofia da linguagem, no sentido de que eles são marcos teóricos; ambos, ao lidar com o problema da implicação material, de algum modo, estabelecem importantes perspectivas dentro dessas áreas. Está, pois, preparado o caminho para o aperfeiçoamento da lógica simbólica clássica, bem como das lógicas alternativas e ampliadas.

 

[1] Doutorando em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná e Professor do curso de Filosofia da Universidade Estadual do Paraná. E-mail: leandro_kallas@hotmail.com

Publicado
2019-11-06
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COMENTÁRIOS ACADÊMICOS